Resenha: As Três Marias, de Rachel de Queiroz

domingo, março 16, 2014

A maioria das pessoas que conheço normalmente tem uma tática ou uma ordem que as ajuda a planejar as próximas leituras. Muitas pessoas se interessam em perguntar quais são as minhas, mas devo dizer que não tenho a mínima ideia. Estou dizendo isso porque não tenho nenhuma noção de como coloquei "As Três Marias", de Rachel de Queiroz em minha lista ou de como simplesmente fiz com que a obra passasse a frente de todas as outras.

Não é o primeiro livro que leio da autora. Minha experiência com ela até então era com "Memorial de Maria Moura", do qual gosto bastante. Nunca li outros títulos da autora embora conheça ao menos um por nome, que seria "O Quinze". Eu nunca tinha escutado falar em "As Três Marias" pelo menos até o momento em que encontrei um PDF maroto por aí. A sinopse falou alto o bastante para que eu me interessasse. E não me arrependi nem um pouco de tê-lo colocado a frente de todos os outros.

As Três MariasAutor(a): Rachel de Queiroz
Editora: José Olympio - 204 páginas.
"Em seu quarto romance, "As Três Marias", a escritora cearense Rachel de Queiroz foi ainda mais fundo em um tema que já estava presente em todas as suas obras anteriores: o papel da mulher na sociedade. A história tem início nos pátios e salas de aula de um colégio interno dirigido por freiras: Maria Augusta, Maria da Glória e Maria José são amigas inseparáveis que ganham de seus colegas e professores o apelido de "as três Marias". À noite, deitadas na grama e olhando para o céu, as meninas se reconhecem na constelação com a qual dividem o nome. A estrela de cima é Maria da Glória, resplandecente e próxima. Maria José se identifica com a da outra ponta, pequenina e trêmula. A do meio, serena e de luz azulada, é Maria Augusta - ou simplesmente Guta, como sempre preferiu ser chamada. Com o passar do tempo, Maria da Glória se transforma em uma dedicada mãe de família e Maria José se entrega por completo à religião. Guta, por outro lado, não se sente capaz de seguir os passos de nenhuma de suas velhas companheiras. Apesar de sua formação conservadora e rígida, ela sempre desejou ir muito além dos portões e muros daquele internato. Seus instintos a instigavam a procurar e explorar novos mundos. Assim, Guta termina a colégio e corre em busca de sua independência. Seu ideal é viver sozinha, seguir seu próprio caminho, livrar-se da família, romper todas as raízes, ser completamente livre. A realidade, no entanto, se mostra muito diferente daquilo que estava descrito nos romances açucarados e livros de poesia que passavam de mão em mão entre as adolescentes sonhadoras. Guta descobre o amor, mas através dele é também apresentada à desilusão e à morte. "As Três Marias", publicado originalmente em 1939, conquistou o cobiçado prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira e, décadas depois, foi adaptado como uma novela para a televisão. De leitura ágil, o romance é um importante marco na literatura brasileira e um dos mais populares em toda a obra de Rachel de Queiroz."

Devo dizer que me surpreendi muito com esse livro. Não pelos acontecimentos, pelo contrário. É uma obra com mais palavras e pensamentos que ações, mas fiquei muito surpresa pela ousadia de um título como esse sendo publicado em 1939, sobretudo protagonizado e de autoria de uma mulher. Devo dizer que a autora estava muito a frente do seu tempo. Agradeço muito por isso. É uma pequena pérola que sempre merece ser vista e admirada.

"As Três Marias" fala basicamente de Maria da Glória, Maria José e Maria Augusta (Guta). O livro é narrado em primeira pessoa por Guta e passa desde a infância - com sua chegada ao internato - até a vida adulta, com dilemas, amores e a formação de sua personalidade. Devo incluir este livro, aliás, na lista dos pouco que gosto que lança mão desse tipo de narrativa. É excelente!

Rachel de Queiroz construiu a personagem de uma forma muito real e ao mesmo tempo muito doce. Não é o tipo de livro no qual a narração em primeira pessoa serve para ver o personagem obcecado consigo mesmo e com seus pensamentos esquizofrênicos. Guta é extraordinariamente sincera consigo mesma e é capaz de enxergar as situações alheias com um certo distanciamento, de narrá-los sem que haja aquela ideia da possibilidade de distorção por uma visão torpe e totalmente parcial que acontece com muitos autores. E sim, fui capaz de sentir empatia por Guta. Um grande milagre pois por muito tempo me julguei incapaz de tal proeza: sou capaz de ter mais ódio ou apatia por um personagem que empatia, especialmente quando narrados em primeira pessoa. Um tremendo avanço ter sentido algo bom por ela.

Definitivamente valeu a pena sacrificar minha paciência lendo o PDF, com letras bem pequeninas. Gostaria MUITO de conseguir o livro e com certeza tentarei encontrá-lo nos sebos da vida. Vale muito a pena ler e ter na estante para muitas outras releituras.

Cinco corujas, com certeza.

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2 comentários

  1. o fato de esta obra ter se transformado em novela da Globo, com Glória Pires, Nadia Lippi e Lídia Brondi(?) em NADA diminui a força e o lirismo da grande pena de Rachel de Queiroz. Bela resenha, colega. Abraços...

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  2. Acabei a leitura agorinha. Que livro bom! Dolorido ... super identifiquei com Guta, acho que não era o momento ideal para a leitura kkkkkkkkkkk fiquei triste!

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